Em 2007 o déficit na balança comercial da indústria farmacêutica brasileira ultrapassou a casa dos seis bilhões de reais. As causas para esse crescimento são estruturais, como o fato de o Brasil ter se tornado nos últimos anos plataforma de exportações de grandes multinacionais do setor e dos esforços de empresas nacionais em se internacionalizar.
Ao mesmo tempo, as vendas brasileiras passaram do bilhão pela primeira vez. Entretanto, ainda existem dificuldades que precisam ser enfrentadas pelos empresários e industriais do ramo: elevar os investimentos em inovação e reduzir a dependência de insumos importados estão entre os mais pontuais.
O déficit comercial brasileiro na área da saúde - quando levados em consideração os números das balanças dos setores de produtos farmacêuticos, incluindo medicamentos, farmoquímicos, além de equipamentos e insumos médico-hospitalares -, apresentou um crescimento substancial, de 36%, se comparado aos US$ 4,4 bilhões de 2006.
Mas, se analisada a balança de farmoquímicos e farmacotécnicos (matéria-prima utilizada na composição dos medicamentos), o saldo negativo saltou de US$ 870 milhões em 2006 para US$ 1,29 bilhão no ano passado, representando um aumento de 48%.
A cadeia produtiva da saúde representa entre 7% e 8% do PIB brasileiro, mobilizando recursos da ordem de R$ 160 bilhões. Por outro lado, esse tipo de indústria no Brasil é caracterizada por produzir medicamentos com menor valor agregado e por importar produtos de alta tecnologia. A melhor maneira de atingir outro patamar de produção é investir em inovação, por meio de centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D), dentro das indústrias e universidades.
Contudo, com uma base tecnológica maior, a indústria brasileira tende a conquistar produtos inovadores, que não possuem insumos produzidos no Brasil. Se há aumento no valor agregado médio dos medicamentos produzidos aqui, é natural que haja um crescimento na importação de insumos. A solução para isso seria estabelecer no Brasil uma indústria forte de farmoquímicos – que produziria os insumos necessários.
Produção de insumos no Brasil é limitada
Os entraves para que isso ocorra são muitos. A indústria brasileira de medicamentos tem se baseado cada vez mais nos genéricos, que majoritariamente utiliza matéria-prima importada. Além disso, viabilizar economicamente uma fábrica de farmoquímicos exigiria uma escala de produção para qual não há demanda da indústria.
“É muito mais fácil importar insumos da China e da Índia, por exemplo. Ainda mais para as multinacionais com plantar no Brasil que geralmente conseguem bons preços junto aos fornecedores por comprar grandes quantidades. O Brasil ainda está longe de produzir insumos”, diz Ricardo Mendes, analista do setor farmacêutico da Consultoria Prospectiva. Portanto, conforme a indústria cresce, maior será o déficit na balança comercial em função do aumento das compras.
Os efeitos colaterais desse crescimento são imediatamente a perda da capacidade tecnológica de produção do setor e o aumento de preços nos principais mercados que abastecem o País, que poderiam levar a uma situação de desabastecimento em algumas classes terapêuticas mais dependentes.
De acordo com José Correia da Silva, presidente do Conselho da Associação Brasileira da Indústria de Química Fina (Abiquif), o crescimento da importação de farmoquímicos em 2007 foi impactado não apenas por maiores volumes de compras de produtos com maior valor, mas por reajustes em alguns mercados como a China, que elevou entre 20% e 30% seus preços.